Posted por em 23 mar 2020

Era uma vez uma garota que nasceu no interior do Estado de Minas Gerais. Era dezembro do ano de 1951. Foi criada dentro dos ensinamentos evangélicos sob uma visão diferente da Doutrina Espírita. Sua família era ativa na igreja que frequentavam. Seu avô tinha sido pregador, junto com missionários ingleses, por todo o centro/norte de Minas Gerais e sul de Goiás. Seu pai também foi pregador, bem como um de seus tios paternos.

Assim, ela foi aprendendo que Deus era maravilhoso, todo bondade, amor, compreensão. No entanto, diziam a ela que existiam os castigos dos céus para aqueles que não cumpriam as determinações divinas, que cometiam o que era entendido como pecado.

Ensinaram para ela, também, que havia o céu e o inferno e que só iriam para o Paraíso aqueles que obedeciam ao Pai que está no céu, e que para o inferno iriam todos aqueles que não agiam corretamente. Tanto o céu, como o inferno, eram experiências eternas. No céu o gozo dos prazeres celestiais, no inferno sem a menor chance de conquistarem o céu, sofrendo as dores que fizeram por merecer.

Aquela garota achava as histórias bíblicas muito bonitas, elas falavam de amor e de bênçãos para os escolhidos pelo Pai.

Ela foi crescendo e começou a refletir sobre todas as coisas que aprendera na igreja e com sua família. Pensava ela:

̶  Deus é amor e bondade, ama todos os seus filhos. Meu pai da terra também me ama muito. Meu pai não gosta de me ver sofrer, nem que por um só minuto. Por que Deus permitiria que um filho seu sofresse eternamente? Alguma coisa está faltando nessa história, não consigo compreender muito bem.

A garota dessa história foi crescendo, casou-se, teve filhos. Levou seus filhos para a igreja e ofereceu-lhes a base evangélica que aprendera com seus pais.

Um certo dia, fez contato com livros espíritas, oferecido por um cliente do banco onde trabalhava. Leu o primeiro e achou interessante a história. Leu mais um e mais um.

Um de seus filhos um dia teve um problema de saúde que os médicos não identificaram a causa e disseram que ele era muito novo para certos tipos de exames. Falavam que deveriam aguardar o momento oportuno para pesquisarmos melhor.

Continuando as crises que atormentavam seu filho, nossa personagem, agora mulher, tentou encontrar novas alternativas de tratamento. Levou seu filho a uma senhora que benzia (assim disseram a ela na época). Lá foi-lhe dito que um espírito sofredor o acompanhava e isso causava-lhe dores, por isso as crises.

Voltando para casa resolveu pedir ajuda a Deus em oração e foi como se alguém lhe dissesse para dar água à criança, enquanto orava, logo que as crises tivessem início.

Quando da próxima crise, assim ela fez. Encheu uma xícara de água e começou a orar. Deu a água a colheradas à criança que na época tinha menos de um ano. À medida que deitava a água em sua boca ela ia se acalmando e logo a crise passou.

Todas as vezes em que ocorria uma crise, assim ela procedia, e o resultado era sempre o melhor possível. As crises que eram diárias começaram a ser esparsas e, após alguns meses, desapareceram.

Nossa amiga continuou sua vida normalmente. Frequentando a igreja, mas sem se esquecer do que havia ocorrido. Procurou novas leituras espíritas e continuou refletindo sobre suas indagações anteriores. Já não era tão refratária aos ensinamentos espíritas, estes lhe passaram a ser até simpáticos.

Nossa personagem, depois de alguns anos, passou por problemas com sua filha. Desta vez foi num centro espírita que encontrou a ajuda necessária. Depois dessa experiência, passou a frequentar o grupo de estudos sistematizados desse mesmo centro. Ali permaneceu por 8 anos. (1)

Enquanto frequentou o grupo espírita, teve algumas experiências que achou muito interessantes. Essas experiências tratavam, principalmente, de textos que lhe ocorriam mentalmente que logo eram escritos para não se perderem. Alguns lhe vinham quando queria escrever algum cartão a amigos, outros mais extensos com a finalidade de trazer alguma orientação ou ensinamento. Muitos deles ela repassava a amigos, pois traziam grande conforto e paz.

Em maio de 1993, quando se dirigia para casa para o almoço, depois de haver trabalhado pela manhã, nossa amiga sofre um acidente de carro. Ao perceber o que havia ocorrido, teve medo e não se permitiu entregar à inconsciência, mantendo-se atenta a tudo como forma de sobrevivência. Sentia que, deixando-se levar pela sonolência, deixaria o corpo de forma definitiva. A preocupação se dava por seus filhos serem ainda adolescentes e precisavam dela para alcançarem condições de seguirem a vida com independência.

Durante os primeiros dias de internação, à noite, percebia uma grande movimentação na área que abrigava dezenas de pacientes em situação semelhante à dela. Depois veio a se conscientizar de que eram amigos espirituais que prestavam socorro aos que ali estavam.

Voltou para casa ainda bastante debilitada. Corria riscos de vida e foi muito difícil lidar com as limitações físicas e psicológicas. Passados alguns meses, ainda se apresentavam os riscos e ela resolveu procurar ajuda espiritual. Conhecera um médium anos antes que fazia atendimento em casos mais graves e o procurou. Conseguiu um atendimento quando ele passava pela cidade em que morava.

Ainda depois do tratamento, algumas dificuldades se mantiveram, foi quando, em sua própria casa vivenciou um tratamento espiritual que veio a marcar profundamente essa nossa amiga. Ela teve a experiência, em si mesma, do grande aparato que existe no plano espiritual, para ser utilizado no socorro às pessoas que precisam desse tipo de atendimento. Foi uma das experiências mais ricas e maravilhosas que pudera vivenciar até aquele momento.

Foram momentos de grande emoção e profundo aprendizado. O que ocorrera fora tão forte que, já no primeiro dia ela providenciou um pequeno gravador e gravou toda a experiência nos dias subsequentes. O tratamento durou cinco dias, mais 4 dias de repouso absoluto.

Quando pôde sair de casa, conforme orientação recebida (1), procurou um grupo espiritualista onde continuou seu tratamento.

Permaneceu com esse grupo por quatro anos e meio, em contato com várias pessoas que ali buscaram apoio espiritual e psicológico.

De toda essa experiência ela aprendeu muita coisa. A mais importante delas é de que realmente Deus nos ama de forma maravilhosa. Seu amor é incondicional, por todos os seus filhos.

Ele nos oferece oportunidades para que consigamos encontrar os nossos caminhos. Caso não alcancemos os objetivos em uma vida, Ele nos oferece tantas quantas sejam necessárias para o aprendizado e a realização.

Nossa amiga teve respostas às suas indagações, pois ela está convicta hoje de que o céu é para todos, ainda que por algum tempo tenhamos que passar por experiências muitos difíceis. Essas experiências nada mais são do que oportunidades de aprendizado e que só passamos por elas por resistimos bravamente na nossa ignorância e na nossa cegueira.

Jesus veio até o nosso Planeta Terra para nos oferecer ensinamentos maravilhosos e nós simplesmente os lemos, dizemos que aceitamos e abraçamos. No entanto, quando chega a hora do exercício, ficamos longe de provarmos que realmente aprendemos. Insistimos na prática de ações contrárias ao sentimento de amor, de compreensão, de harmonia.

Mesmo a título de amarmos alguém, nós queremos impor-lhes nossas crenças e valores, por acreditarmos ser o melhor. O amar requer respeito e compreensão, aceitação. Jesus não nos impôs qualquer coisa. Ele ofereceu sua mensagem, sua orientação, mas deixou a cada um o direito de querer abraçá-las. Mesmo que não queiramos segui-lo ele continua a nos amar, como nos ama até hoje, independentemente de estarmos exercitando seu Evangelho.

Ele compreende nossas limitações, nossa pouca capacidade de aplicar o verdadeiro amor em nossas vidas.

Outro fato muito importante é o de que temos grandes amigos. Nossa amiga dessa história compreendeu a importância de se ter amigos. Eles são valiosos em qualquer processo de recuperação. Seu carinho, atenção, dedicação, seu amor fazem-nos um grande bem tornando as dores mais amenas e a recuperação mais rápida.

Temos companheiros que se dedicam ao trabalho espiritual e procuram auxiliar os doentes nos hospitais.

Afora os amigos do nosso dia a dia na terra, nós temos amigos do plano espiritual que se dedicam ao trabalho de amor todo o tempo, um trabalho incansável. São grupos especializados que vão a campo para a recuperação, orientação e auxílio a tantos quantos necessitem e busquem esse apoio. Como alguns daqueles que foram identificados por ela enquanto esteve internada.

Quanto à busca da cura dos males que nos afligem, precisamos entender que muitos desses males nós os escolhemos para exercitarmos o aprendizado que já recolhemos ao longo de várias vidas. O importante é que consigamos conviver com eles de forma harmoniosa, sem deixarmos que a angústia e a revolta nos envolva e impeça de identificarmos o ensinamento que há para absorver.

É importante compreendermos que algumas doenças ou dificuldades não poderão ser erradicadas de nossas vidas sem que isso não nos venha a prejudicar. Elas aparecem para que aprendamos algo e venhamos a crescer espiritualmente. Sem essas experiências estaremos retardando nosso processo evolutivo,

Sabemos que Deus é sábio e bom e que Ele quer o melhor para nós. Sabemos também que Jesus é a imagem do verdadeiro amor e um enviado do Pai para que aprendamos mais das verdades maiores. Tendo consciência disso tudo e sabendo que nem todos foram curados de seus males pelo Cristo, podemos tirar algumas conclusões:

  • não era a cura física o objetivo da vinda de Jesus ao Planeta, e sim a cura dos males espirituais, a verdadeira cura. Pois, se curados espiritualmente, nosso corpo não mais sofre;
  • Jesus sabia e sabe que algumas pessoas precisam conviver com as suas doenças, pois são recursos para seu aprendizado e evolução.

Nossa amiga também aprendeu que há uma grande diferença entre sofrimento e dificuldades, dores ou doenças. Dificuldades todos nós temos já que estamos nessa vida para aprender e exercitar nosso aprendizado adquirido em outras vidas. Essas dificuldades podem vir na forma de doenças, males físicos ou mentais, escassez de bens materiais e outras coisas mais. No entanto, essas dificuldades não representam necessariamente sofrimento.

Muitas vezes ouvimos as pessoas dizerem que precisamos sofrer para pagar por nossos pecados passados. Mais uma vez podemos dizer que esse tipo de afirmação contraria a imagem que fazemos de Deus. Quando é que um pai que nos ama quer que soframos para cumprir uma pena às vezes muito dolorosa. Deus quer é nos ver felizes, mas nós tornamos quase impossível o atendimento a essa vontade divina. Criamos mil obstáculos à sua realização.

A questão é, temos dificuldades sim, mas elas são recursos de aprendizado. São momentos muito valiosos que precisamos aprender a aproveitar para crescermos espiritualmente. Quando passamos por essas dificuldades de uma forma digna, retirando delas o ensinamento próprio e nos portando de forma a não voltarmos a cometer as mesmas, certamente não estaremos sofrendo e sim elevando o nosso espírito e tornando a nossa vida mais fácil e prazerosa.

Quanto melhor enfrentarmos os obstáculos que a vida nos oferece, mais próximos estaremos de conquistar melhores condições de vida, amenizando nossas próximas experiências em um corpo físico. Poderemos ser mais felizes, com formas de aprendizado mais amenas.

Diante dos obstáculos, o que normalmente costumamos fazer? Procurar um socorro, não é? E no caso de socorro espiritual, logo procuramos em nossa memória as preces que conhecemos.

Creio que vale a pena usarmos um pequeno espaço de tempo aqui para falarmos sobre a oração:

“O que quer que seja que pedirdes na prece, crede que o obtereis, e vos será concedido.” (Mc 11:24)

Vamos refletir a respeito de condições básicas para que tenhamos atendidas nossas preces. Porque essas condições existem.

Mais um aprendizado, que a nossa amiga acolheu, é o fato de que todos nós temos uma faculdade muito importante – a intuição. Essa faculdade habilita-nos a caminhar de uma forma mais segura, se estivermos atentos àquela vozinha interior que nos fala sempre quando queremos fazer algo que não deveríamos ou quando não queremos fazer algo que deveríamos. Ela, na maior parte das vezes indica-nos as ações corretas.

O que nos faz não seguirmos o melhor caminho é não estarmos atentos à nossa intuição ou não acreditarmos nela. Muitas vezes identificamos que, se a tivéssemos ouvido e seguido, não teríamos cometido tantos disparates.

Essa intuição decorre muitas vezes de conhecimentos que adquirimos ao longo de várias vidas, os resultados dessas experiências ficam registrados. Quando vamos agir de forma a sofrer o mesmo tipo de consequência, nossa memória nos avisa como um alarme, mas nós não a ouvimos. Outras vezes são espíritos amigos que nos falam amorosamente e, mais uma vez, nós não nos damos conta da importância dessas advertências. Em outras oportunidades, são avisos de amigos de jornada que passam por determinados tipos de vivências ou comentam alguma coisa conosco e as registramos na nossa memória que, quando entende necessário, nos avisa para sabermos agir.

Vale a pena nós passarmos a ficar mais atentos a esses avisos sutis que recebemos a todo instante e, certamente, cometeremos menos enganos.

É muito importante também, nessa jornada de aprendizado e evolução, sabermos partilhar, com nossos companheiros, os conhecimentos que conseguimos adquirir. O aprender simplesmente, como uma forma de colecionar conhecimentos é uma forma egoísta de proceder. De que vale adquirirmos informações e nada fazermos com elas. O compartilhar é uma maneira de nos elevarmos e auxiliarmos na elevação daqueles com quem convivemos.

Quando exercitamos o compartilhar, observamos o quanto é prazeroso verificar outros irmãos aprenderem e identificarem informações que para eles passavam despercebidas.

Auxílio no caminhar mais seguro e mais confiante.

(1) Este texto foi escrito em novembro de 1999. Ainda hoje, março/2020, esta amiga continua frequentando o mesmo grupo. Acolheu para si a tarefa de levar estudos e palestras a outros grupos espíritas, em Brasília. Já escreveu vários livros, sejam de textos de seus estudos ou palestras, como também breves reflexões a que dá o título de Reflexões da Alma.

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