Postado por em 6 ago 2018

Estudo oferecido na FEB Federação Espírita Brasileira, em 06-08-2018

Folheto e anexo distribuídos ao público (PDF) – Reino de Deus

Áudio do estudo (mp3) – Reino de Deus


No dia 30-07-2018 tivemos a apresentação do tema Medo, pelo Godinho(FEB), em que nos ofereceu algumas reflexões quando, então, sugeriu uma conexão entre os temas Medo e Reino de Deus. Aqui ofereço algumas de suas observações, esclarecendo que o faço depois de ter comentado com ele a respeito da minha intenção.

O medo e o Reino de Deus

O medo é uma emoção reflexa decorrente do desconhecimento a respeito do que nos possa ocorrer.

Por exemplo: medo da morte, do que possa acontecer a partir de um determinado fato ou ação – nossa ou de outrem. Enfim, medo do desconhecido ou do que nos foge ao controle.

Quem nos ofereceu o último estudo sobre o tema Medo trouxe-nos reflexão interessante que poderemos relacionar, hoje, com o tema Reino de Deus. Pedro negou conhecer Jesus, quando perguntado a respeito, por não saber o que lhe poderia acontecer se afirmasse tê-lo conhecido (Jesus) – teve medo.

Os discípulos, depois da crucificação de Jesus, estiveram a portas fechadas com medo, porque não sabiam o que lhes poderia acontecer, tendo como referência, o que ocorrera com Jesus e alguns de seus seguidores.

Trazendo esse conceito para o estudo do Evangelho, especificamente para a passagem trazida por João 20:19:

“Chegada, pois, a tarde daquele dia, o primeiro da semana, e cerradas as portas onde os discípulos, com medo dos judeus, se tinham ajuntado, chegou Jesus, e pôs-se no meio, e disse-lhes: Paz seja convosco.”

Tanto Pedro, quando negou Jesus, quanto os discípulos que estavam recolhidos a portas fechadas, foram tomados da emoção Medo por estarem enfrentando o desconhecido.

No entanto, foram tomados de emoção diferente que lhes surgiu quando da presença do Mestre – a confiança.

A partir daquele momento, os discípulos vivenciaram uma nova realidade. Despertaram para o Reino de Deus que traziam em si, mas que precisara ser vivenciada a sua presença em cada um deles. Só a confiança e a fé viriam a proporcionar esse despertamento. O medo não mais lhes ocorreria, um novo Ser acontecia a partir daquele momento.

Concluiu nosso companheiro. Para não mais sentirmos medo do que nos possa ocorrer na experiência de viver, precisamos desenvolver, ou despertar, o Reino de Deus em nós. A partir de então, a fé nos conduzirá por caminhos firmes e seguros. Não haverá dúvidas nem desconfiança. O medo não mais fará parte de nossas vidas.

Acrescenta então… os Espíritos que já atingiram patamares mais elevados em seu processo evolutivo não mais têm medo, pois sabem o que lhes ocorre e ocorrerá. O saber, o confiar, trazem paz plena.

A primeira referência ao Reino dos Céus foi trazida por João o Batista, como consta em Mateus 3:1-3:

1 E, naqueles dias, apareceu João o Batista pregando no deserto da Judéia,

2 E dizendo: Arrependei-vos, porque é chegado o reino dos céus.

3 Porque este é o anunciado pelo profeta Isaías, que disse: Voz do que clama no deserto: Preparai o caminho do Senhor, Endireitai as suas veredas.

Podemos discorrer sobre o Reino de Deus citando muitas das parábolas de Jesus e suas referências quando ao tema.

Como também poderemos trazer outros exemplos mais próximos de nós, tendo os ensinamentos do Mestre como base das reflexões.

Mateus 13

11 “Ao que respondeu: Porque a vós outros é dado conhecer os mistérios do reino dos céus, mas àqueles não lhes é isso concedido.”

15 “Porque o coração deste povo está endurecido, de mau grado ouviram com os ouvidos e fecharam os olhos; para não suceder que vejam com os olhos, ouçam com os ouvidos, entendam com o coração, se convertam e sejam por mim curados.”

Aqui Jesus já nos oferece alguma condição de compreender o que será necessário para alcançarmos o entendimento sobre o reino dos céus, ou reino de Deus.

Precisamos ter o coração abrandado. Estarmos dispostos a ouvir e a ver seus ensinamentos para, então, podermos entender com o coração. Então, convertidos, seremos curados.

A cura a que se refere o Mestre não será necessariamente a cura do corpo, não obstante tenha curado muitos doentes à época. A cura real é a do Espírito, a nossa verdadeira essência.

Por inúmeras vezes, Jesus referiu-se à fé como o motivo da cura física de muitos aos quais socorreu. O Mestre foi um instrumento para a cura física sim. No entanto, esta decorreu de uma causa primeira – a fé. Ter fé é ter ouvidos de ouvir e olhos de ver. Termos o coração abrandado para colher os ensinamentos e fazermos contato com o Reino de Deus em nós.

Aqui temos a oportunidade de tentar compreender as palavras de Jesus transcritas em Lucas 17:

20 Interrogado pelos fariseus sobre quando viria o reino de Deus, Jesus lhes respondeu: Não vem o reino de Deus com visível aparência.

21 Nem dirão: Ei-lo aqui! Ou: Lá está! Porque o reino de Deus está dentro de vós.”

O Reino de Deus não é uma meta a ser alcançada fora de nós. É abrir nossos corações, abrandados pela fé, para o despertamento do Espírito para uma nova vida. Lembrando as passagens:

“Então os justos resplandecerão como o sol, no reino de seu Pai. Quem tem ouvidos para ouvir, ouça.” (Mt 13:43)

“Mas buscai primeiro o reino de Deus, e a sua justiça, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.” (Mt 6:33)

”Os que estão à beira do caminho, são os que ouviram; então vem o adversário e tira a Palavra de seus corações,”(Lc 8:12)

– aqui uma referência à Parábola do Semeador. Quem seria o adversário? Como podermos interpretar? Esse adversário, ou adversários, são nossos “inimigos” internos que bloqueiam a nossa vontade de buscar o entendimento dos ensinamentos maiores – orgulho, vaidade, falta de compaixão, desamor, displicência, mágoa, rancor, inveja, falta de determinação e de vontade de apreender os ensinamentos.

”tendo ouvido a Palavra com coração bom e perfeito, a retêm e dão fruto com perseverança.” (Lc 8:15)

Em o livro Aprender com o Mestre – Sobre o Amor, Vol. II, Elda Evelina, Bookes Editora

Outras reflexões (*)

O conceito de um reino em que só existisse o bem-estar, a paz, é muito anterior à própria vinda do Mestre Jesus entre nós há pouco mais de dois mil anos.

A sensação da existência de uma vida futura e da possibilidade de se viver com alegria e harmonia já convive com o Homem desde épocas primitivas. Como também os conceitos básicos que fundamentam a própria Doutrina Espírita, como nos afirma Kardec em O Livro dos Espíritos, Questão 221 – “É uma lembrança que ele conserva do que sabia como Espírito antes de encarnar. Mas, o orgulho amiudadamente abafa esse sentimento… Conservando a intuição do seu estado de Espírito, o Espírito encarnado tem, instintivamente, consciência do mundo invisível, mas os preconceitos bastas vezes falseiam essa ideia e a ignorância lhe mistura a superstição.”

A essência da mensagem do Evangelho do Cristo pode ser encontrada nas diferentes épocas da Humanidade. Descobrimos vestígios desses ensinamentos nos escritos e nas crenças. Todos os povos de alguma forma têm conhecimento do que é certo ou errado; da existência de outros níveis de consciência; de haver Seres em outros planos além do físico; de poderem contar com instruções desses Seres para o encaminhamento de suas vidas.

A vinda de Jesus, o Messias prometido, já havia sido prevista pelos profetas no Velho Testamento – aquele que viria trazer a paz ao mundo.

Quando Pilatos interpelou Jesus se ele era o rei dos Judeus, foi em razão de conhecer as profecias e as expectativas do povo quanto à vinda do Messias – livrar o povo do jugo de Roma, como também proporcionar a oportunidade de tomarem posse da terra prometida.

Jesus, no entanto, respondeu: Meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, a minha gente houvera combatido para impedir que eu caísse nas mãos dos judeus; mas, o meu reino ainda não é aqui. (João 18:36)

Muitas pessoas não compreendem ainda que o Reino de Deus não é um local circunscrito, apesar das palavras do Mestre.

Por muitos séculos acreditou-se que para merecer o reino de Deus seria preciso passar pelo sofrimento, para resgate dos pecados cometidos. Chegou-se ao extremo de muitas pessoas praticarem o autoflagelo como punição e purificação do corpo. Ainda há um seguimento religioso que acredita e aplica essa prática.

Com relação a isso, vale lembrar as palavras de Jesus quando ainda perguntado por Pilatos se ele seria rei, Jesus respondeu: não nasci e não vim a este mundo senão para dar testemunho da verdade. Àquele que pertence a verdade escuta a minha voz. (João 18:37)

Qual seria a verdade a que Jesus se referia?

Podemos afirmar tranquilamente que a verdade trazida e exercitada pelo Mestre está inserida em todos os livros dos Evangelistas e epístolas dos Apóstolos – os ensinamentos que Jesus nos trouxe e efetivamente demonstrou por todo o tempo em que viveu conosco há dois mil anos.

Kardec nos coloca na Introdução ao Evangelho Segundo o Espiritismo que os ensinamentos são “roteiro infalível para a felicidade vindoura, o levantamento de uma ponta do véu que nos oculta a vida futura. Essa parte é a que será objeto exclusivo desta obra.”

As pessoas admiram a mensagem e pronunciam a sua fé muitas vezes baseadas tão-somente no que ouvem dizer ou se apegando aos textos sem compreender o sentido do que ali está dito. Diz Kardec, ainda na Introdução ao Evangelho: “A forma alegórica e o intencional misticismo da linguagem fazem com que a maioria o leia por desencargo de consciência e por dever, como leem as preces, sem as entender, isto é, sem proveito. Passam-lhe despercebidos os preceitos morais, disseminados aqui e ali, intercalados na massa das narrativas.”

Poucos procuram estudar e compreender a fundo as mensagens e torná-las instrumentos de reflexão e meditação.

Podemos encontrar em Lucas 20:26 que Jesus perguntara a um doutor da Lei em Jerusalém “Que está escrito na lei? Como lês?” Podemos refletir, a partir dessa passagem do evangelista, que Jesus quer saber com que profundidade o doutor da Lei lê e interpreta os textos. Nós buscamos nos livros o que desejamos assimilar. Podemos ler aspirando pela consolação nos textos; ou o cultivo da nossa dor; por simples entretenimento, sem compromisso de aprendizado. No caso da leitura dos textos evangélicos, no entanto, devemos ter como objetivo a nossa iluminação interior, pois só assim alcançaremos o entendimento necessário à nossa elevação moral e espiritual.

Precisamos compreender o Evangelho, a Boa Nova, o Testamento que Jesus nos deixou, como diz Joanna de Ângelis na introdução ao livro “Jesus e o Evangelho à luz da psicologia profunda“. Acrescenta ainda queé o mais belo poema de esperanças e consolações de que se tem notícia.Diz que é tambémprecioso tratado de psicoterapia contemporânea para os incontáveis males que afligem a criatura e a Humanidade.”

Diz-nos Emmanuel em “O Consolador”, questão 225: “No turbilhão das tarefas de cada dia, lembrai a afirmativa do Senhor: – “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida“. Se vos cercam as tentações de autoridade e poder, de fortuna e inteligência, recordai ainda as suas palavras: – “Ninguém pode ir ao Pai senão por mim“. E se vos sentis tocados pelo sopro frio da adversidade e da dor, se estais sobrecarregados de trabalhos no mundo, buscai ouvi-Lo sempre no imo d’alma: – “Quem deseje encontrar o Reino de Deus tome a sua cruz e siga os meus passos“.

O que representaria seguir os passos de Jesus para encontrar o reino de Deus? Muitos, ainda hoje, interpretam essa frase literalmente, acreditando que tão-só precisam conhecer os lugares e seguir pelos caminhos por onde ele andou.

Precisamos ir além da letra, buscar o sentido real inserido na mensagem.

Tomar a nossa cruz e seguir os passos do Mestre certamente nos leva a refletir sobre a necessidade de compreender as dificuldades e os obstáculos que a vida nos oferece, em decorrência de nossas experiências do passado, e fazer dessas experiências um aprendizado. É aprender a carregar o fardo das experiências difíceis de forma suave e digna. Lembrando as palavras de Jesus: “Vinde a mim todos vós que estais cansados e sobrecarregados e eu vos aliviarei. Tomai sobre vós o meu jugo, e aprendei de mim, porque sou manso e humilde de coração; e achareis descanso para as vossas almas. Porque o meu jugo é suave e o meu fardo é leve.”

Quanto a seguir os ensinamentos de Jesus, o Cristo, deverá ser seguir o seu exemplo de vida. Buscar nossa elevação moral e compreendermos a necessidade de sermos afáveis e fraternos.

“Meu reino não é deste mundo.” Então, onde estaria o reino de Deus?

Diz-nos também Joanna de Ângelis no livro “Jesus e o Evangelho”: “Na visão da psicologia profunda, embora Ele (Jesus) se referisse às Esferas de onde procedia, o Seu Reino também eram as paisagens e regiões do sentimento, onde se pudessem estabelecer as bases da fraternidade e o amor unisse todos os indivíduos como irmãos, conquista primordial para a travessia pela ponte metafísica do mundo terrestre para aquele que é de Deus e nos aguarda a todos.”

No texto “A vinda do reino de Deus”, do livro “O Espírito do Cristianismo”, Caibar Schutel diz: “O Reino de Deus não está em lugar determinado, nem aparecerá nesta ou naquela nação, nesta ou naquela cidade, porque está em toda a criação, não sendo percebido por nós devido à deficiência dos nossos sentidos, ou antes, devido ao modo por que o procuramos. Se em vez de o buscarmos materialmente o fizéssemos espiritualmente, perceberíamos logo que ele está em nós mesmos, desde que a sua Lei, permaneça em nós.

Qual é a Lei de Deus? A Paz, o Amor, a Sabedoria, a Verdade. Logo, o Reino de Deus deve consistir justamente nisto: na Paz, no Amor, na Sabedoria, na Verdade. Buscando a Lei de Deus, encontraremos o Reino de Deus, isto é, a forma de governo em que Deus é o Rei, e nós somos os súditos, Mas quem não quer saber dessa Lei, quem quer adaptar-se à lei dos homens, não pode encontrar o Reino de Deus, e, quando nele pensa, anda procurando-o aqui ou acolá.”

Citando Lucas 17:21 “O Reino de Deus está no meio de vós”.

Podemos perceber que o texto do evangelista é claro quanto a onde está o Reino de Deus. É importante observar que ele diz que o Reino de Deus está, ele não diz que estará. O verbo está no tempo presente. O Reino de Deus já se encontra em nós. Como também já se encontra entre nós o Consolador prometido por Jesus: “E eu rogarei ao Pai, e Ele vos dará outro Consolador, para que fique convosco para sempre; O Espírito de verdade, que o mundo não pôde receber, porque não o vê nem o conhece; mas vós o conheceis, porque habita convosco, e estará em vós.” João 14:16 e 17.

Podemos perguntar então: se o Reino de Deus está em nós, por que razão não o percebo em mim?

Há uma história que nos leva a refletir sobre essa questão:

No fundo de um lago, de água cristalina, há uma pérola de valor inestimável. Entretanto, para que a pérola possa ser vista da superfície, é indispensável que as águas estejam tranquilas; se estiverem agitadas pelo vento, a pérola continuará no mesmo lugar, mas não poderá ser vista. A porção de água do lago corresponde à nossa alma. Da mesma forma que não dá para enxergar através das águas agitadas, não dá para perceber o Reino de Deus, através de nossas almas agitadas. Apenas quando as águas serenam, a pérola pode ser vista. Da mesma forma, apenas quando a alma for serenada, quando tivermos a nossa alma livre das perturbações inerentes ao apego a questões materiais, o Reino de Deus, que é a mais valiosa entre todas as pérolas, poderá ser percebido. (autor desconhecido)

Ao final de toda essa reflexão a respeito do Reino de Deus e dos conselhos do Mestre sobre como alcançarmos esse estado de graça, resta a nós aprender a carregar a nossa cruz e seguir os passos de Jesus para podermos encontrar o Reino de Deus que já habita em nós.”

(*) Em o livro Reflexões Evangélicas II, Elda Evelina, Bookess Editora

 

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