Evangelho e os diálogos de Jesus – Cura dos cegos de Jericó

Postado por em 3 mar 2018

Estudo a ser oferecido na FEB em 5-03-2018

Áudio do estudo (mp3) – Cura dos cegos de Jericó

 

Mateus 20:29-34

Marcos 10:46-52

Lucas 18:35-43

 

Antes de discorrer sobre o tema em questão, creio ser profícuo refletirmos sobre o interpretar o Evangelho do Mestre Jesus.

A mensagem que Ele nos trouxe está profundamente assentada no exercício do amor em toda a sua plenitude.

Sendo assim, este deve ser o foco dos estudos sobre Jesus e seus ensinamentos.

Dados históricos e circunstanciais poderão auxiliar-nos a compreender o contexto e os perfis culturais e emocionais dos personagens, e proporcionar melhores condições para a interpretação. No entanto, o foco principal desses estudos deve ser a maneira amorosa e o conhecimento profundo que o Mestre demonstrou sobre aqueles a quem se dedicou a auxiliar e ensinar ao longo de sua jornada terrena.

Joanna de Ângelis, em o livro Jesus e atualidade (Introdução) diz-nos:

“O Sermão da Montanha, considerado a “carta magna dos direitos humanos”, é um desafio de não-violência, próprio para esta época, assim com foi para aquela em que Ele o enunciou. Os que O ouviram, jamais se desimpregnaram da sua magia incomparável.

Não somente, porém, Jesus é atual pelas terapias de amor e pelos ensinamentos que propõe ao homem contemporâneo, mas, também, pelo exemplo de felicidade e exteriorização de paz que irradiava. (…)

Ele ressurge na consciência moderna, em plenitude, jovial e amigo, afortunado pela humanidade e a segurança íntima.

A atualidade necessita urgentemente de Jesus descrucificado, companheiro e terapeuta em atendimento de emergência, a fim de evitar-lhe a queda no abismo.”

Iniciando, então, o nosso estudo. A passagem objeto de nossas reflexoes foi narrada por  Mateus, Marcos e Lucas. Estes são chamados Evangelho sinóticos. Esta denominação tem sua origem no grego: συν, “syn” («junto») oοψις, “opsis” («ver). Esta classificação tem sua razão pelo número de fatos em comum narrados pelos citados evangelistas, na mesma sequência e por vezes utilizando a mesma estrutura de palavras.

São quatro os Evangelhos canônicos(1), sendo que destes somente três são sinóticos.

O que os difere de forma tão especial que justifique a identificação particularizada? Enquanto os sinóticos apresentam Jesus com características humanas, destacando-se dos demais por suas ações milagrosas, o evangelista João descreve Jesus como um Messias, ressaltando sua conexão estreita com Deus e sua missão de redentor.

Diálogos:

Mateus 20;29-34

29 E, saindo eles de Jericó, seguiu-o grande multidão.

30 E eis que dois cegos, assentados junto do caminho, ouvindo que Jesus passava, clamaram, dizendo: Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de nós!

31 E a multidão os repreendia, para que se calassem; eles, porém, cada vez clamavam mais, dizendo: Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de nós!

32 E Jesus, parando, chamou-os, e disse: Que quereis que vos faça?

33 Disseram-lhe eles: Senhor, que os nossos olhos sejam abertos.

34 Então Jesus, movido de íntima compaixão, tocou-lhes nos olhos, e logo seus olhos viram; e eles o seguiram.

Marcos 10:46-52

46 E depois, foram para Jericó. E, saindo ele de Jericó com seus discípulos e uma grande multidão, Bartimeu, o cego, filho de Timeu, estava assentado junto do caminho, mendigando.

47 E, ouvindo que era Jesus de Nazaré, começou a clamar, e a dizer: Jesus, filho de Davi, tem misericórdia de mim.

48 E muitos o repreendiam, para que se calasse; mas ele clamava cada vez mais: Filho de Davi! tem misericórdia de mim.

49 E Jesus, parando, disse que o chamassem; e chamaram o cego, dizendo-lhe: Tem bom ânimo; levanta-te, que ele te chama.

50 E ele, lançando de si a sua capa, levantou-se, e foi ter com Jesus.

51 E Jesus, falando, disse-lhe: Que queres que te faça? E o cego lhe disse: Mestre, que eu tenha vista.

52 E Jesus lhe disse: Vai, a tua fé te salvou. E logo viu, e seguiu a Jesus pelo caminho.

Lucas 18:35-43

35 E aconteceu que chegando ele perto de Jericó, estava um cego assentado junto do caminho, mendigando.

36 E, ouvindo passar a multidão, perguntou que era aquilo.

37 E disseram-lhe que Jesus Nazareno passava.

38 Então clamou, dizendo: Jesus, Filho de Davi, tem misericórdia de mim.

39 E os que iam passando repreendiam-no para que se calasse; mas ele clamava ainda mais: Filho de Davi, tem misericórdia de mim!

40 Então Jesus, parando, mandou que lho trouxessem; e, chegando ele, perguntou-lhe,

41 Dizendo: Que queres que te faça? E ele disse: Senhor, que eu veja.

42 E Jesus lhe disse: Vê; a tua fé te salvou.

43 E logo viu, e seguia-o, glorificando a Deus. E todo o povo, vendo isto, dava louvores a Deus.

Algumas diferenças são encontradas nas três narrativas, mas sem grande expressão para a nossa busca pelo entendimento da mensagem que nos poderão oferecer.

Em Mateus, há dois detalhes que nos chamam a atenção pela sua singularidade, com relação aos outros evangelistas:

33 Disseram-lhe eles: Senhor, que os nossos olhos sejam abertos.

34 Então Jesus, movido de íntima compaixão, tocou-lhes nos olhos, e logo seus olhos viram; e eles o seguiram.

Quanto a que “nossos olhos sejam abertos”, poderemos identificar estar além do simplesmente serem cegos e quererem ver fisicamente. Abrir-se-lhes os olhos poderá remeter-nos a um entendimento muito mais profundo. Receberem a bênção de serem capazes de compreender o que lhes ocorria, a razão de suas vidas, a melhor percepção do mundo e, mais ainda, dos ensinamentos do Mestre. Poderão alguns de nós levantar a questão de as diferenças serem tão só decorrentes de traduções dos textos originais. É verdade. No entanto, poderemos aproveitar a oportunidade para termos um olhar mais amplo sobre a questão.

Na verdade, o texto permite-nos identificar que os olhos dos cegos já estavam sendo abertos ao reconhecerem em Jesus a capacidade de lhes permitir ver – essa percepção da identidade do Mestre como instrumento de cura e de misericórdia.

Quanto à expressão “movido de íntima compaixão”, é indubitável que Jesus só poderia agir dessa forma. No entanto, a menção desse sentimento demonstra que aquele momento se mostrava muito especial, valia a pena dar destaque à compaixão do Mestre por aqueles pedintes tão insistentes pela crença que abrigavam em seus corações – poderiam ser curados por aquele Ser.

O que ainda nos sensibiliza nessa passagem é a expressão “e eles o seguiram”.

Lembrando Emmanuel “É natural peçamos o auxílio do Mestre em nossas dificuldades e dissabores; entrementes, não nos esqueçamos de trabalhar pelo bem, nas mais aflitivas passagens da retificação e da ascensão, convictos de que nos encontramos invariavelmente na mais justa e proveitosa oportunidade de trabalho que merecemos…” (2)

Diz-nos Emmanuel ainda: “É um erro lamentável despender nossas forças, sem proveito para ninguém, sob a medida de nosso egoísmo, de nossa vaidade ou de nossa limitação pessoal.

Coloquemos nossas possibilidades ao dispor dos semelhantes.

Ninguém deve amealhar as vantagens da experiência terrestre somente para si. Cada espírito provisoriamente encarnado, no círculo humano, goza de imensas prerrogativas, quanto à difusão do bem, se persevera na observância do Amor Universal.” (3)

Faz-nos lembrar as palavras de Jesus: “Vós sois a luz do mundo.” (Mt 5:14)

Precisamos ser verdadeiros, sem receios. Trazer de dentro de nós a própria luz, o nosso brilho interior, e iluminar à nossa volta; abrir os caminhos à nossa frente e permitir que companheiros de jornada possam também se beneficiar dessa luz.

Em Marcos, também observamos que o cego que fora curado pedira a Jesus que tivesse “vista”, como também seguiu a Jesus.

Em Lucas, não só foi dito que o seguiu, como também glorificou a Deus.

Nas narrativas de Marcos e Lucas constam que Jesus dissera: “a tua fé te salvou”.

É uma expressão muito utilizada por Jesus após suas curas. Sabemos que ter fé verdadeira implica já em transformações no Espírito que somos. Leva-nos a mudar caminhos e buscar uma relação mais íntima com o Pai e, por decorrência, com o Mestre. Jesus detinha a capacidade de observar, naqueles que viera a curar, essa condição espiritual e reconhecia estarem já prontos para receberem a graça a ser concedida.

Ele nos conhece a todos e sabe o quanto estamos efetivamente conectados com o Criador e identifica em nós a extensão de nosso comprometimento com as Leis Divinas.

A interpretação seja do Evangelho, seja da vida, passa, inevitavelmente, pelo aprendizado intelectual, moral e ético. Conhecimentos que vão se agregando à nossa bagagem na jornada física e espiritual.

Precisamos nos acostumar a olhar o mundo com olhos atentos, mesmo, ou principalmente, aos pequenos detalhes.

A vida torna-se mais bela e útil quando percebemos a riqueza que nela existe.

Sermos capazes de interpretar um olhar, um gesto, uma palavra, faz-se importante para saber apreender os ensinamentos dos quais temos estado à procura.

(1)       Canônicos são os Evangelhos aceitos pela maioria das denominações cristãs como legítimos e, portanto, integram o Novo Testamento da Bíblia. Esta definição teve seu início por volta de 150 d.C. e documentado pela primeira vez em sua forma atual em 367 d.C. Ratificado em 397 da Era Cristã no Sínodo de Hipona Regia (hoje Argélia)

(2)       Em nossa marcha, Fonte Viva, Emmanuel, por Chico Xavier

(3)       A candeia viva, Fonte Viva, Emmanuel, por Chico Xavier

Em o livro Aprender com o Mestre – Sobre o Amor II … em elaboração

2 Comentários

  1. 5-3-2018

    Querida Elda. Conforme pediu-me, aqui teço meu comentário sobre seu site que, sem embargo, é composto de temas assaz profundos e simples ao mesmo tempo. Como bem sabes, tudo que é simples há profundidade. Mas, infelizmente, poucos compreendem essa verdade. Ora, por ter sido simples, Jesus é menos imitado! Seus textos estão sempre amparados no Evangelho de Jesus, e isso é magnífico. As palavras de Jesus resumem toda síntese da filosofia religiosa e da religião filosófica. Siga em frente… São os votos do irmão em Cristo Bruno Godinho.

    • 5-3-2018

      Boa tarde. Muito grata, companheiro da Seara, na verdade irmão como você mesmo disse. Normalmente eu não peço o que pedi a você. No entanto, percebi que poderia fazê-lo porque compreenderia ser um pedido sincero por uma opinião sincera. Meu carinhoso e fraternal abraço.

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